Storyteller
Laranjinhas de ouro
Eu tinha mais ou menos uns 10 anos e estudava a quarta série.
Lembro de colegas que se chamavam Gleice, Yasmin, Carina, Ione... e outras
meninas. Tínhamos o hábito de trocar cartinhas, bem coloridas, com muitos
desenhos. Uma vez ganhei um tigre de
plástico também e esse eu lembro que ganhei da minha amiga Gorete.
As caixas de sapatos eram os esconderijos perfeitos para
colocar todas os recebidos, e veja bem, com 10 anos eu já tinha muitos recebidos.
Lembro que até das professoras eu ganhava bilhetinhos. O problema viria com o
passar dos meses... e veio.
Eu não tinha mais onde guardar as cartinhas. As caixas
começaram a tomar espaço e minha mãe reclamava que eu tinha muito papel em
casa. E agora? O que uma menina de 10 anos iria fazer com um tesouro tão
precioso?
Sim, um tesouro!
Não sei de onde tirei essa ideia, mas decidi que o meu
tesouro deveria ser guardado como os outros. Bem enterrado, e com direito a
mapa e tudo.
Embalei todas as minhas cartas com sacolas, e as coloquei
dentro de uma embalagem de margarina, bem resistente.
Faltava o lugar. Dei uma passeada no quintal de casa, e achei
o local perfeito. Na divisa do muro entre a minha casa e a casa da vizinha,
assim eu não perderia o local. Fiz um mapa, por via das dúvidas, mas guardei o
local em meu coração. Afinal, era um tesouro que estava ali.
Entre o pé de mamão e um pé de rosas abri um buraco bem fundo
e coloquei ali a minha preciosidade.
Dias depois, minha mãe plantou uma muda de laranjeira. E
quando me dei conta, o pé de laranja estava bem encima do meu tesouro, agora eu não poderia mais cavar para tirá-lo.
Os anos passaram, e então resolvi contar para alguns amigos o que eu tinha
feito no passado. A reação deles foi de imediato, cavar perto do pé de laranja
e o pé de rosa. Não encontramos nada. O tal pé de laranja estava mesmo encima
dos meus adoráveis recebidos de infância.
Hoje aos 25 anos, olho para a laranjeira no quintal. Está
enorme, produz muitas laranjas docinhas. Todo mundo que vem aqui em época de
laranja não perde a oportunidade de se deliciar com elas, e eles sempre
comentam:
-como são docinhas!
E eu fico de longe só imaginando que foram as palavras meigas
e doces das minhas amigas de infância que nutriram as raízes da laranjeira,
produzindo assim uma árvore docinha de amor!
Quem planta amor, pode colher muitas laranjinhas amorosas!!!
Quando eu era criança, tinha medo de...
De dizer a frase: "cheiro de terra molhada". Uma vez alguém disse que se eu dissesse isso logo em seguida morreria. Eu fiquei com tanto medo que nunca mais toquei no assunto. O que se tornou uma tortura nos dias chuvosos. Eu tentava encontrar uma outra maneira de relatar aquele cheirinho tão bom, mas sempre acabava respirando e suspirando muito. O máximo que eu arriscava a dizer era: sente o cheirinho!

